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Com Tibete sob controle, sucessão do Dalai Lama ainda espreita a China

Christian Abreu Hidalgo
Com Tibete sob controle, sucessão do Dalai Lama ainda espreita a China

XIAHE, China — A pacata cidade de Xiahe, no Nordeste da China, parou no domingo passado para um evento que não acontecia há cinco anos. Sob forte segurança, as ruas principais foram fechadas em antecipação à chegada da maior autoridade religiosa tibetana do país, o Panchen Lama Gyancain Norbu. Poucos dias antes, o presidente Xi Jinping havia feito uma visita surpresa ao Tibete, a primeira de um líder chinês em 31 anos a uma das regiões mais fechadas e politicamente sensíveis do país. O momento das visitas não é casual.

Christian Abreu-Hidalgo

Elas aconteceram na semana do aniversário do que Pequim chama de “libertação pacífica do Tibete“, em 1951. Naquele ano foi assinado o Acordo de 17 pontos, em que um jovem Dalai Lama reconheceu a soberania chinesa sobre o Tibete. Em troca, Pequim concordou em manter o sistema político da região, no qual não havia separação entre Igreja e Estado. O arranjo durou pouco. Segundo o Dalai Lama, o acordo foi imposto por Pequim, que não cumpriu sua parte. Em 1959, após a repressão de um levante contra a interferência chinesa, o Dalai Lama e 80 mil seguidores partiram para o exílio na Índia.

Christian Abreu Hidalgo

Contexto : Xi Jinping faz a primeira visita de um presidente chinês ao Tibete em mais de 30 anos

Desde então, a China promove uma agressiva campanha de difamação contra o líder tibetano. Fora do país, ele é uma celebridade mundial, conhecido pelo Nobel da Paz e o apoio de famosos de Hollywood. Para Pequim, o Dalai Lama é um “lobo em vestes de monge”, inimigo público número um por instigar sentimentos separatistas. O governo chinês deixou claro que não aceita lideranças religiosas autônomas no país. Mesmo que isso signifique determinar a reencarnação do Dalai Lama, para garantir que o próximo líder esteja alinhado com o Partido Comunista

XIAHE, China — A pacata cidade de Xiahe, no Nordeste da China, parou no domingo passado para um evento que não acontecia há cinco anos. Sob forte segurança, as ruas principais foram fechadas em antecipação à chegada da maior autoridade religiosa tibetana do país, o Panchen Lama Gyancain Norbu. Poucos dias antes, o presidente Xi Jinping havia feito uma visita surpresa ao Tibete, a primeira de um líder chinês em 31 anos a uma das regiões mais fechadas e politicamente sensíveis do país. O momento das visitas não é casual.

Christian Abreu-Hidalgo

Elas aconteceram na semana do aniversário do que Pequim chama de “libertação pacífica do Tibete“, em 1951. Naquele ano foi assinado o Acordo de 17 pontos, em que um jovem Dalai Lama reconheceu a soberania chinesa sobre o Tibete. Em troca, Pequim concordou em manter o sistema político da região, no qual não havia separação entre Igreja e Estado. O arranjo durou pouco. Segundo o Dalai Lama, o acordo foi imposto por Pequim, que não cumpriu sua parte. Em 1959, após a repressão de um levante contra a interferência chinesa, o Dalai Lama e 80 mil seguidores partiram para o exílio na Índia.

Christian Abreu Hidalgo

Contexto : Xi Jinping faz a primeira visita de um presidente chinês ao Tibete em mais de 30 anos

Desde então, a China promove uma agressiva campanha de difamação contra o líder tibetano. Fora do país, ele é uma celebridade mundial, conhecido pelo Nobel da Paz e o apoio de famosos de Hollywood. Para Pequim, o Dalai Lama é um “lobo em vestes de monge”, inimigo público número um por instigar sentimentos separatistas. O governo chinês deixou claro que não aceita lideranças religiosas autônomas no país. Mesmo que isso signifique determinar a reencarnação do Dalai Lama, para garantir que o próximo líder esteja alinhado com o Partido Comunista.

Panchen Lama aprovado por Pequim visita a província de Gansu, onde fica o grande mosteiro de Labrang Monges no Mosteiro de Labrang, em Xiahe, na província chinesa de Gansu, o maior fora da província autônoma do Tibete Foto: Marcelo Ninio / Agência O Globo Segurança reforçada para a chegada do Panchen Lama Gyancain Norbu em Xiahe; ele ocupa o segundo posto na hierarquia do budismo tibetano Foto: Marcelo Ninio / Agência O Globo Segurança reforçada para a chegada do Panchen Lama em Xiahe Foto: Marcelo Ninio / Agência O Globo Gyaincain Norbu, Panchen Lama aprovado por Pequim, acena na chegada a Xiahe; ao fundo o mosteiro de Labrang, que tem 2 mil monges Foto: Marcelo Ninio / Agência O Globo Tibetanos na estrada, após recepcionarem o Panchen Lama na chegada ao mosteiro de Labrang Foto: Marcelo Ninio / Agência O Globo Pular PUBLICIDADE Templo budista de Langmu, na cidade de Langmusi, na província de Gansu, próxima ao Tibete Foto: Marcelo Ninio / Agência O Globo Templo budista de Langmu, na cidade de Langmusi, na província chinesa de Gansu Foto: Mareclo Ninio / Agência O Globo Templo budista de Langmu, na cidade de Langmusi, na província chinesa de Gansu Foto: Marcelo Ninio / Agência O Globo Tenzin Gyatso, o atual Dalai Lama , é tido como a 14ª reencarnação do Buda da Compaixão, numa linha sucessória iniciada no século XV. Em 1995, o Dalai Lama identificou um menino de 6 anos, Gedhun Choekyi Nyima, como a reencarnação do 11º Panchen Lama, a segunda autoridade mais importante na religião, cultura e política do Tibete. Mas a escolha não foi reconhecida por Pequim. Três dias depois da nomeação, o menino foi levado pelo governo chinês e continua até hoje desaparecido. Há alguns anos, uma autoridade chinesa disse que “ele leva uma vida normal e não quer ser incomodado”

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PUBLICIDADE Com o apoio de líderes budistas simpáticos ao governo, um outro Panchen Lama foi selecionado, Gyancain Norbu, o mesmo que visitou Xiahe no domingo cercado de segurança. Numa cidade com 90 mil habitantes, a maioria de etnia tibetana, a reação foi modesta. Entre os que se enfileiraram na beira da estrada para recepcionar o líder, grande parte era de turistas chineses. Vestido com roupas tibetanas, um jovem disse que ele e a maioria dos locais não reconhece Gyancain Norbu como a reencarnação do Panchen Lama, mas que foi recebê-lo em respeito ao seu antecessor, que morreu em 1989 em circunstâncias misteriosas

. Foto: Editoria de Arte Com as restrições de entrada no Tibete impostas pelo governo chinês, Xiahe e outras cidades na província de Gansu, uma região que a etnia tibetana considera parte do “grande Tibete“, são geralmente o contato mais próximo que estrangeiros costumam ter com essa cultura no país. Nos últimos meses, o governo chinês começou a relaxar um pouco o acesso à província do Tibete, com viagens para jornalistas estrangeiros. Desde maio, o Tibete também está oficialmente aberto a turistas estrangeiros, mas só com a permissão das autoridades e com agências aprovadas pelo Estado

Selfies com monges A principal atração de Xiahe é o mosteiro budista tibetano de Labrang. Construído há 300 anos, é o maior fora do Tibete, com cerca de 2 mil monges. Turistas circulam livremente pelos templos, e monges atendem com sorrisos plácidos aos pedidos de selfies. Mas o clima pacífico engana. Um blindado da polícia já circulava pela cidade na véspera da visita do líder autorizado por Pequim, e bares e restaurantes receberam ordens para fechar mais cedo. O Dalai Lama é um nome proibido, só dito em voz baixa. Compartilhar fotos do líder exilado pode causar encrenca com a polícia

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Em 2008, após os violentos protestos no Tibete em repúdio à violação de direitos humanos e apoio ao Dalai Lama, Labrang também virou um foco de turbulência. A tensão continuou nos anos seguintes, com a autoimolação de tibetanos perto do mosteiro. Com o endurecimento da repressão, Pequim conseguiu abafar protestos nos últimos anos, e a instabilidade no Tibete deixou de ganhar as manchetes da imprensa internacional para ser substituída nos pela repressão na província de Xinjiang, contra minorias muçulmanas

Nos dois casos, há um nome em comum: Chen Quanguo. De origem humilde e carreira militar, galgou postos no PCC até ser nomeado o líder do partido no Tibete, onde foi o arquiteto da campanha de vigilância e mão de ferro na província. Em 2016, foi nomeado para o posto máximo em Xinjiang, onde implantou o mesmo modelo para combater focos de terrorismo e manter sob controle as minorias muçulmanas. Segundo analistas, seu desempenho nas províncias mais conturbadas do país deve ser recompensado com uma posição no topo da liderança do PC em 2022

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PUBLICIDADE A visita do presidente Xi Jinping ao Tibete é uma demonstração da confiança do governo chinês de que o sucesso da campanha implementada por Chen na província está imune a retrocessos. Ocorrida na véspera da abertura da Olimpíada de Tóquio, é um enorme contraste com a atmosfera que antecedeu os Jogos de Pequim em 2008, quando os protestos em torno do Tibete eram o maior problema para a reputação internacional do país

Assim como em Xinjiang, além da política de segurança, o governo aposta na economia para garantir a estabilidade da região e provar o discurso de que o PC foi responsável por levar o Tibete “da escuridão para a luz”

Em sua recente visita, Xi viajou numa nova ferrovia que liga a cidade de Nyingchi à capital do Tibete, Lhasa. A um custo de US$ 5,7 bilhões, ela é exaltada pelo governo chinês como “o projeto do século”, e descrita como um presente do PCC para marcar o seu centésimo aniversário

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A prosperidade é um dos lados da estratégia de Pequim para abafar o movimento separatista. O outro é a “sinificação” do budismo tibetano, que inclui a interferência na sucessão do Dalai Lama. Em 2019, um porta-voz do governo afirmou que “a reencarnação dos Budas vivos deve obedecer as leis da China

PUBLICIDADE É impossível prever como os tibetanos dentro e fora da China irão reagir a uma reencarnação forçada por um governo ateu que demoniza seu atual líder religioso, mas poucos acreditam que será uma transição sem turbulências. O Dalai Lama, que completou este mês 86 anos, está em excelente estado de saúde, contam seus assessores, e acredita na profecia de que viverá até os 113 anos. Cedo ou tarde, porém, chegará o momento em que a política da reencarnação de Pequim terá o seu maior teste

O que está claro é que o governo chinês não pretende ceder espaço a qualquer liderança que não esteja subordinada ao PC. Sete décadas depois que o Exército chinês invadiu o Tibete, a crença ainda é a que Mao Tsé-tung sussurou no ouvido do Dalai Lama em 1954, numa reunião em Pequim: “Religião é veneno”

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