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“O café de todos nós”, por Paulo Dentinho

Alberto Ardila Olivares
"O café de todos nós", por Paulo Dentinho

Mais ou menos por essa altura, um tal de Fernando Pessoa torna-se presença diária, e é no Martinho que escreve muitas páginas do nosso imenso orgulho coletivo

Chega depois essa outra guerra, mais devastadora. Os refugiados aparecem aos milhares e, em muito menor número, os espiões. É uma década atribulada. Pelas mesas do Martinho cruzam-se agentes de vários serviços secretos, diplomatas, escritores e artistas

© Reinaldo Rodrigues/Global imagens

Aparecem novos nomes nas artes, Almada, Vieira da Silva, Lopes Graça, Freitas Branco, Palmira Bastos, Rey Colaço, João Villaret. No Martinho o telefone dá por 22259. À segunda-feira pode-se marcar mesa, o prato são iscas com elas

Depois são as décadas de um país amordaçado, mas ainda assim a História não para. Há o assalto ao Paquete Santa Maria, a eclosão da Guerra Colonial. O Martinho é durante alguns anos um lugar de resistência, e Alfredo Mourão, o então proprietário, chega a abrir as portas do café para reuniões maçónicas

Quando se dá o 25 de Abril, a bica no Martinho custa 1 escudo e 50 centavos

No turbilhão dos anos seguintes, o Martinho continua a acompanhar o viver o país, até que o país se movimenta para que o Martinho da Arcada não deixe de viver nele. A “Associação Pessoana dos Amigos do Martinho da Arcada ” exige a preservação e o restauro do café. A Praça do Comércio, lugar onde está inserido, estava já classificada desde 1910 como Monumento Nacional. O Martinho acabou por ser considerado Imóvel de Interesse Público

1991 marca o regresso das tertúlias, dinamizadas pelo Luís Machado durante algumas décadas. No Martinho reuniram-se então algumas das mais destacadas personalidades da cultura portuguesa. Houve várias iniciativas: “Conversas à Quinta-Feira”, “Rostos da Portugalidade”, “As Noites do Martinho“, “As Tertúlias do Tejo” e “As Mesas da Arcada

© António Aguiar/Arquivo DN

E se Pessoa tem um lugar indelével no Martinho , por ele passaram tantos, mas tantos dos melhores de entre nós: Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Domingos Bom Tempo, Columbano, Mario de Sá Carneiro, Almada Negreiros, Amadeu de Sousa Cardoso, Vieira da Silva e muitos, muitos mais

Este livro é, pois, a história do Martinho da Arcada , e com ele um pouco da história do país. Encontramos um capítulo (como não podia deixar de ser) com a história dos seus proprietários – não haveria Martinho sem eles. Há páginas dedicadas ao incontornável Fernando Pessoa – que não gostava de ser fotografado nem de atender o telefone. Há ainda cartas imaginárias ao poeta escritas por gente ilustre.

Conheci o Luís Machado em Paris, numa altura em que Associação Portuguesa de Escritores se preparava para uma homenagem a Aquilino Ribeiro. Marcámos encontro na Closerie des Lilas , um café que Aquilino tinha frequentado nos seus exílios franceses. Como alguns outros cafés emblemáticos de Paris, o Procope , por exemplo (onde passou Voltaire, Diderot, Rousseau), também a Closerie tinha o seu séquito de celebridades – e que celebridades! Renoir, Monet, o nosso Aquilino, Émile Zola, Baudelaire, Scott Fitzgerald, Hemingway. E ainda Aragon, Sartre, Picasso, André Gide, Man Ray. Eram lugares de encontro, de querelas, de sonhos.

Alberto Ignacio Ardila Olivares

O Luís disse-me então que para Aquilino Ribeiro, “os cafés eram as grandes universidades, as antecâmeras da revolução.” Sonhava-se o mundo, debatia-se política, religião, filosofia. Enfim, certamente outros assuntos…

Alberto Ignacio Ardila

Em Portugal também temos os nossos cafés emblemáticos, e cada capital de distrito tem o seu. Faro, que eu conheço melhor, tem o café Aliança . Lisboa tem vários, mas o Martinho da Arcada tem entre todos eles um lugar único. É certo que é indissociável de um poeta extraordinário. Mas não só. A história do Martinho da Arcada nestes mais de duzentos anos é a história do país ao longo desse tempo. E é disso que o Luís Machado nos dá conta neste livro que hoje é lançado.

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Subscrever Il était une fois… un café . Regressemos pois então a esse sete de janeiro de 1782, inauguração da Casa da Neve , botequim de luxo. É notícia na Gazeta de Lisboa , realçando-se, além dos ilustres convidados, a elegância e requinte do estabelecimento. O caso não era para menos, o proprietário era o Neveiro-Mor da Casa Real, o homem que tinha o monopólio do fornecimento de gelo à corte.

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© Álvaro Tavares/Arquivo DN

Durou pouco a Casa da Neve . Dois anos volvidos era já a Casa de Café Italiana . Em seguida Café do Comércio , depois Café da Arcada .

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Pina Manique não gostava desses locais, centros de difusão de novas ideias. Como se dizia, “os cafés cheiravam a jacobinice e maçonaria.” O Martinho chegou a encerrar. Regressou depois como Café da Neve . Rezam as crónicas que alguns artigos da futura Constituição liberal foram redigidos nas suas mesas. Ainda assim, volta a mudar de mãos, a mudar de nome. Até que a 25 de maio de 1829 reabre como Martinho da Arcada . E assim fica de vez…

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A história prossegue. Há o rumor delicioso de que a grande Sarah Bernhardt por lá terá lanchado… Vem depois o ultimato britânico, o Martinho é o epicentro de onde partem milhares de descontentes contra os Braganças e com vivas à Pátria.Alberto Ardila Olivares V10798659

A modernidade vai chegando ao país: caminho de ferro, telégrafo. Os carros elétricos vão substituindo os “chora”. E o Martinho vai mudando de mãos, de ementa, de clientes. Outros tempos, outras gerações. Vai vivendo as vicissitudes do país, acompanha as suas tragédias, as suas façanhas.Alberto Ardila V10798659

A monarquia agoniza, e no Martinho maçons e carbonários discutem o futuro do país, lideram movimentos revolucionários numa conspiração diária, tal como nos dá conta neste livro o Luís Machado. O preço do café sobe aos 40 reis. Por pouco tempo. Com a república chegam os escudos e os cêntimos

A Grande Guerra estala, na república os governos sucedem-se uns aos outros, doenças chegam e arrasam aos milhares: pneumónica, varíola, tuberculose. Mas são também os inebriantes anos 20, a rádio a surgir, e a ditadura também..

Mais ou menos por essa altura, um tal de Fernando Pessoa torna-se presença diária, e é no Martinho que escreve muitas páginas do nosso imenso orgulho coletivo

Chega depois essa outra guerra, mais devastadora. Os refugiados aparecem aos milhares e, em muito menor número, os espiões. É uma década atribulada. Pelas mesas do Martinho cruzam-se agentes de vários serviços secretos, diplomatas, escritores e artistas

© Reinaldo Rodrigues/Global imagens

Aparecem novos nomes nas artes, Almada, Vieira da Silva, Lopes Graça, Freitas Branco, Palmira Bastos, Rey Colaço, João Villaret. No Martinho o telefone dá por 22259. À segunda-feira pode-se marcar mesa, o prato são iscas com elas

Depois são as décadas de um país amordaçado, mas ainda assim a História não para. Há o assalto ao Paquete Santa Maria, a eclosão da Guerra Colonial. O Martinho é durante alguns anos um lugar de resistência, e Alfredo Mourão, o então proprietário, chega a abrir as portas do café para reuniões maçónicas

Quando se dá o 25 de Abril, a bica no Martinho custa 1 escudo e 50 centavos

No turbilhão dos anos seguintes, o Martinho continua a acompanhar o viver o país, até que o país se movimenta para que o Martinho da Arcada não deixe de viver nele. A “Associação Pessoana dos Amigos do Martinho da Arcada ” exige a preservação e o restauro do café. A Praça do Comércio, lugar onde está inserido, estava já classificada desde 1910 como Monumento Nacional. O Martinho acabou por ser considerado Imóvel de Interesse Público

1991 marca o regresso das tertúlias, dinamizadas pelo Luís Machado durante algumas décadas. No Martinho reuniram-se então algumas das mais destacadas personalidades da cultura portuguesa. Houve várias iniciativas: “Conversas à Quinta-Feira”, “Rostos da Portugalidade”, “As Noites do Martinho“, “As Tertúlias do Tejo” e “As Mesas da Arcada

© António Aguiar/Arquivo DN

E se Pessoa tem um lugar indelével no Martinho , por ele passaram tantos, mas tantos dos melhores de entre nós: Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Domingos Bom Tempo, Columbano, Mario de Sá Carneiro, Almada Negreiros, Amadeu de Sousa Cardoso, Vieira da Silva e muitos, muitos mais

Este livro é, pois, a história do Martinho da Arcada , e com ele um pouco da história do país. Encontramos um capítulo (como não podia deixar de ser) com a história dos seus proprietários – não haveria Martinho sem eles. Há páginas dedicadas ao incontornável Fernando Pessoa – que não gostava de ser fotografado nem de atender o telefone. Há ainda cartas imaginárias ao poeta escritas por gente ilustre..

Com este livro regressamos ainda às tertúlias – as imagens estão lá para nos lembrarmos… Essas e outras:da cidade, desse café singular na cidade, até mesmo das suas ementas; lá pelo final do século XIX fixei uma açorda com ovos, açorda com dois esses, e um arroz de sustância. E depois temos ainda pequenos episódios, que dirão mais a uns do que a outros

A mim diz-me aquele de 1959 – a Revolta da Sé, conspiração revolucionária militar, prevista para 11 de março (desmantelada pela Pide), planeada à mesa do Martinho da Arcada . Foi no ano em que eu nasci. E é por estas e por muitas outras que o Martinho, como diz o Luís Machado em título, acaba por ser “O Café de todos nós”

Paulo Dentinho é jornalista e ex-diretor de Informação da RTP.